Equinodermos: O Que São, Exemplos e Espécies do Litoral Brasileiro
Equinodermos são animais marinhos invertebrados do filo Echinodermata. O nome vem do grego: echinos (ouriço, espinho) + derma (pele). O grupo inclui estrelas-do-mar, ouriços-do-mar, pepinos-do-mar, bolachas-da-praia e lírios-do-mar — todos com um plano corporal único no reino animal.
O Que São os Equinodermos
Equinodermos são animais exclusivamente marinhos, sem nenhum representante em água doce ou em terra. São invertebrados deuterostômios — grupo que também inclui cordados e, portanto, os vertebrados. Isso os torna parentes evolutivos distantes dos humanos, mais próximos de nós do que de insetos ou moluscos.
O filo agrupa cerca de 7.000 espécies vivas, distribuídas por todos os oceanos do planeta, do litoral raso até as fossas abissais com mais de 10 km de profundidade. No Brasil, estão presentes em toda a costa, do Amapá ao Rio Grande do Sul, com maior diversidade nas regiões de recife de coral do Nordeste e nas praias de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Características Gerais dos Equinodermos
Simetria pentarradial
A característica mais marcante do grupo é a simetria radial de quinta ordem — o corpo se repete em cinco partes ao redor de um eixo central. Uma estrela-do-mar adulta tem cinco braços porque o plano corporal exige esse número. A larva, porém, tem simetria bilateral, como a maioria dos animais. A simetria radial aparece apenas durante o desenvolvimento.
Endoesqueleto calcário
A pele dos equinodermos cobre um endoesqueleto formado por placas e ossículos de carbonato de cálcio. Esse esqueleto interno é o que dá textura áspera, espinhosa ou rígida ao toque. Nos ouriços, o esqueleto forma uma cápsula esférica chamada test. Nas estrelas-do-mar, sustenta os braços. Nos pepinos-do-mar, é reduzido a espículas microscópicas — daí a textura mole do animal.
Sistema ambulacrário (hidrovascular)
O sistema ambulacrário é exclusivo dos equinodermos e funciona como um sistema hidráulico de locomoção e alimentação. Água do mar entra por uma estrutura porosa chamada madreporita, percorre canais internos e chega aos pés ambulacrais — pequenas projeções tubulares que se fixam ao substrato por sucção e permitem o movimento lento e coordenado do animal.
Os pés ambulacrais também são usados para capturar alimento e até para respiração em algumas espécies. Um ouriço-do-mar se move contraindo centenas de pés ambulacrais de forma coordenada.
As 5 Classes de Equinodermos com Exemplos
O filo é dividido em cinco classes, cada uma com um plano corporal distinto:
1. Asteroidea — Estrelas-do-Mar
São os equinodermos mais conhecidos. Têm cinco braços (ou múltiplos de cinco) com pés ambulacrais na face inferior. A boca fica voltada para baixo, no centro do disco central. A maioria é predadora — abre mexilhões e ostras empurrando as valvas com os braços e evertendo o estômago para dentro da presa para digeri-la externamente.
Exemplos: Echinaster brasiliensis (estrela-do-mar brasileira, comum no litoral de SP e RJ), Luidia senegalensis (estrela-da-areia, encontrada nas praias do Nordeste), Oreaster reticulatus (estrela-almofada, nos recifes do litoral norte).
2. Echinoidea — Ouriços-do-Mar e Bolachas-da-Praia
Os ouriços têm corpo esférico coberto de espinhos móveis sobre o test calcário. Os espinhos servem para locomoção, defesa e até construção de tocas nas rochas. A boca, na face inferior, contém a Lanterna de Aristóteles — estrutura mastigatória com cinco dentes calcários capazes de raspar algas de rochas.
As bolachas-da-praia (sand dollars) são ouriços achatados que vivem enterrados na areia. Sua casca (já sem espinhos) é encontrada frequentemente nas praias do Sul e Nordeste do Brasil.
Exemplos brasileiros: Echinometra lucunter (ouriço-do-espinho-roxo, o mais abundante no litoral rochoso do Brasil), Lytechinus variegatus (ouriço-do-mar-verde, recifes do Nordeste), Mellita quinquiesperforata (bolacha-da-praia, praias arenosas do Sul ao Nordeste).
3. Holothuroidea — Pepinos-do-Mar
Os pepinos-do-mar têm corpo alongado e mole, sem braços nem espinhos evidentes. Vivem deitados no fundo do mar, filtrando sedimento ou água. São decompositores essenciais dos ecossistemas de fundo — processam matéria orgânica e reciclam nutrientes para o sedimento, funcionando como “minhocas do mar”.
Quando ameaçados, alguns pepinos expulsam os órgãos internos (evisceram) pelo ânus para distrair o predador. Os órgãos se regeneram em semanas.
Exemplos: Isostichopus badionotus (pepino-do-mar preto, Nordeste do Brasil), Holothuria grisea (pepino-cinza, estuários e manguezais costeiros).
4. Ophiuroidea — Ofiuros (Serpentes-do-Mar)
Os ofiuros têm disco central pequeno e cinco braços longos e flexíveis que se movem como serpentes — daí o nome popular. São os equinodermos mais ágeis e rápidos. Diferente das estrelas-do-mar, não têm pés ambulacrais nos braços; usam os próprios braços musculosos para se locomover por movimentos ondulantes.
Muitas espécies são noturnas, escondendo-se sob rochas ou corais durante o dia. São importantes predadores de pequenos invertebrados e também agem como decompositores.
Exemplos: Ophioderma januarii (cobra-do-mar, encontrada nos recifes de SP ao Nordeste), Amphipholis januarii (ofiuro pequeno, comum em costões rochosos).
5. Crinoidea — Lírios-do-Mar e Comatulídeos
Os lírios-do-mar têm aparência vegetal: um talo que os prende ao substrato e braços plumosos que filtram partículas da água. Os comatulídeos (crinoides sem talo) podem nadar e se locomover. São os equinodermos mais antigos do registro fóssil — existem há mais de 480 milhões de anos praticamente sem mudanças anatômicas.
No Brasil, são encontrados principalmente em recifes profundos do Nordeste e em ilhas oceânicas como Fernando de Noronha e o Arquipélago de São Pedro e São Paulo.
Equinodermos no Litoral Brasileiro
O Brasil tem uma das maiores diversidades de equinodermos do Atlântico Sul. Estudos do IBAMA e do Instituto Oceanográfico da USP documentam mais de 200 espécies ao longo da costa brasileira. As principais áreas de concentração são:
- Litoral nordestino (BA ao MA): maior diversidade de corais e recifes rasos, com alta concentração de ouriços e ofiuros
- Arquipélago de Fernando de Noronha e Atol das Rocas: hotspots de biodiversidade marinha, com espécies raras de crinoides e estrelas
- Litoral de SP e RJ: costões rochosos com Echinaster brasiliensis e Echinometra lucunter
- Litoral Sul (SC e RS): praias arenosas com bolachas-da-praia e pepinos em ambientes de surf
Os recifes de corais do Brasil, localizados principalmente no Nordeste, são os únicos recifes de coral do Atlântico Sul e um dos habitats mais ricos para equinodermos. A acidificação dos oceanos representa uma das principais ameaças a esses ambientes — e aos equinodermos que dependem de cálcio para formar o esqueleto.
Reprodução e Regeneração dos Equinodermos
Reprodução sexuada
A maioria dos equinodermos tem sexos separados (são dioicos). A fertilização ocorre externamente: macho e fêmea liberam gametas na água ao mesmo tempo — processo chamado desova sincronizada. O ovo fertilizado se desenvolve em larva de vida livre, com simetria bilateral, que nada e se alimenta de plâncton por semanas antes de se fixar e sofrer metamorfose para a forma adulta radial.
Regeneração
Equinodermos têm capacidade de regeneração impressionante. Uma estrela-do-mar pode regenerar um braço perdido em semanas. Algumas espécies conseguem regenerar o disco central completo a partir de um único braço — desde que ele contenha parte do disco. Nos pepinos-do-mar, os órgãos internos eviscerados se regeneram em 1 a 5 semanas.
Alguns ofiuros se reproduzem por fissão: o animal se divide ao meio e cada metade regenera a outra metade do corpo. Esse é um dos casos mais raros de reprodução assexuada em animais complexos.
Importância Ecológica dos Equinodermos
Equinodermos desempenham funções essenciais nos ecossistemas marinhos:
- Controle de populações: estrelas-do-mar controlam populações de mexilhões, ostras e ouriços nos costões rochosos. A remoção de estrelas em experimentos clássicos causou explosão de mexilhões que eliminou outras 25 espécies do mesmo ambiente.
- Reciclagem de nutrientes: pepinos-do-mar processam toneladas de sedimento, liberando nutrientes essenciais para outros organismos. Estima-se que em algumas regiões processem mais de 90% do sedimento do fundo.
- Bioindicadores: ouriços-do-mar são sensíveis à poluição e acidificação. A ausência ou queda populacional de ouriços é um sinal precoce de degradação de recifes.
- Estrutura do habitat: crinoides e pepinos criam microhabitats usados por camarões, peixes e outros invertebrados.
Saiba mais sobre os animais marinhos do Brasil e seu papel nos ecossistemas costeiros.
Curiosidades sobre Equinodermos
A estrela-do-mar come fora do corpo
A maioria das estrelas-do-mar pratica digestão extracorpórea. Para comer um mexilhão, a estrela pressiona os braços contra as valvas, cria uma pequena abertura e everte o próprio estômago para dentro da presa. As enzimas digestivas dissolvem os tecidos do mexilhão do lado de fora, e a estrela reabsorve o resultado. O processo pode levar horas.
O ouriço não tem cérebro
Equinodermos não têm cérebro nem cabeça. O sistema nervoso é difuso — um anel nervoso central envia sinais para nervos radiais que percorrem cada braço ou seção do corpo. Apesar disso, são capazes de comportamentos coordenados complexos, como orientação em relação à luz e resposta rápida a predadores.
Pisar em ouriço nas praias brasileiras
O ouriço-do-espinho-roxo (Echinometra lucunter) é muito comum nos costões rochosos do Brasil. Acidentes com banhistas que pisam descalços em pedras são frequentes. O que fazer: não tente arrancar os espinhos com pinças — eles são frágeis e quebram dentro da pele, piorando a inflamação. Mergulhe o pé em vinagre diluído por 15 a 30 minutos para amolecer os espinhos, e procure atendimento médico se houver sinais de infecção. Os espinhos calcários são absorvidos pelo organismo em dias a semanas.
Equinodermos vivem em todos os oceanos
Do litoral raso até a Fossa das Marianas, com mais de 10 km de profundidade, equinodermos estão presentes. Pepinos-do-mar são os animais mais abundantes nas zonas abissais — podem representar mais de 90% da biomassa de fundo em certas regiões do Pacífico. Leia mais sobre a vida nos oceanos e as ameaças à biodiversidade marinha.
Perguntas Frequentes sobre Equinodermos
O que é o sistema ambulacrário dos equinodermos?
É um sistema hidráulico exclusivo dos equinodermos. Água do mar circula por canais internos e pressuriza estruturas chamadas pés ambulacrais, que se fixam ao substrato por sucção e permitem locomoção, captura de alimento e respiração.
Quais são as 5 classes dos equinodermos?
Asteroidea (estrelas-do-mar), Echinoidea (ouriços e bolachas-da-praia), Holothuroidea (pepinos-do-mar), Ophiuroidea (ofiuros ou serpentes-do-mar) e Crinoidea (lírios-do-mar e comatulídeos).
Os equinodermos têm cérebro?
Não. Equinodermos têm sistema nervoso difuso, sem cérebro centralizado. Um anel nervoso central coordena os nervos radiais que percorrem cada braço ou seção do corpo. Apesar disso, executam comportamentos coordenados complexos.
Como os equinodermos se reproduzem?
Principalmente por reprodução sexuada com fertilização externa — macho e fêmea liberam gametas na água ao mesmo tempo. Também são capazes de regeneração e, em algumas espécies, de reprodução assexuada por fissão do corpo.
Quais equinodermos existem nas praias do Brasil?
Nas praias rochosas, o ouriço Echinometra lucunter e a estrela Echinaster brasiliensis são os mais comuns. Nas praias arenosas, a bolacha-da-praia Mellita quinquiesperforata vive enterrada na zona de arrebentação. Nos recifes do Nordeste, há maior diversidade de todas as classes.
Por que a estrela-do-mar sente com o estômago de fora?
Para capturar presas com valvas fechadas (mexilhões, ostras), a estrela-do-mar everte o estômago para fora do corpo pela boca, introduzindo-o pela mínima abertura entre as valvas. As enzimas digestivas dissolvem os tecidos da presa externamente, e a estrela reabsorve o alimento já digerido. Esse processo é chamado de digestão extracorpórea.






